quinta-feira, 24 de março de 2011

Você vai ser professor? Conta outra, vai!

Recebi o artigo abaixo de um ex- aluno que cursa Filosofia, compartilho com todos e peço que reflitam. Quem escreve é um professor filósofo da UFRRJ, ele deve ter passado por poucas e boas para chega a esta conclusão!
E confesso que concordo! No ensino "superior" encontrei diversas pessoas pelo caminho: interessadas, desinteressadas, preocupadas mais com a beleza do que com o intelecto...
O que sempre me assustou foram as atitudes de jovens estudantes que tentavam atacar professores, porque somos jovens (talvez), porque queremos fazer como nossos mestres fizeram, passando o que sabemos e fazendo cada futuro professor caminhar com suas próprias pernas, pensarem por si mesmos e não se enganarem, como muitos fazem, uns olham com bons olhos, outros não!
Espero que todos passem por salas de aula, de todas as idades e sintam o que é realmente ser professor! E continuem na profissão, matando um leão a cada dia! Segue o artigo:

Você vai ser professor? Conta outra, vai!


Continuamos a dar aulas nos cursos de licenciatura como se estivéssemos em Cambridge. Tudo corre de modo irreparável.  Ao menos nós, os bons professores das universidades públicas, continuamos a colocar os alunos lendo os clássicos, falando sobre infância e teorias pedagógicas e tudo o mais. Fingimos descaradamente que os estados e os municípios (os únicos responsáveis pelo o ensino básico) estão fazendo a sua parte e que os nossos alunos irão ocupar os postos de professores no ensino fundamental e médio. Mas não vão.
A média de exoneração a pedido do próprio professor é de mais de dois por dia letivo, entre os que passaram em concurso recente no Estado de S. Paulo. Em 25 dias letivos, foram 60 professores que deixaram o cargo. A maior parte deles está entre os mais bem formados, os que vieram de universidades públicas (Folha, 21/03). O governo Alckmin diz que isso é “normal”, que tais pedidos são por “motivos pessoais”. Sim! De fato, são pessoais. A maioria diz que sua experiência pessoal, em 25 dias, mostra que não compensa, por mil reais, enfrentar alunos que não prestam atenção em nada, apenas falam no celular durante a aula, furam pneus de carros e ameaçam professores. Isso sem contar as condições físicas das escolas. Essa é realidade paulista, mas São Paulo não precisa se orgulhar sozinho por ter tornado seu ensino um lixo.  A maior parte dos estados da Federação apresenta os mesmos problemas. Os melhores professores, os concursados que passam nos primeiros lugares dos últimos exames, logo percebem que qualquer outro emprego pode ser melhor que ser um professor da escola pública. Nunca um setor do serviço público foi tão menosprezado no Brasil.
O que fazemos nós, na universidade pública, a esse respeito? Nada! Continuamos a ler as estatísticas, mas não abrimos a boca, para os nossos alunos, do que é ser professor na rede pública. Entramos em sala dos cursos de licenciatura e ministramos as aulas sonhando, todos, que vamos formar professores, mas no íntimo, tocamos o barco como se estivéssemos, mesmo, é alimentando um bacharelado disfarçado. Pois, no íntimo, sabemos que estamos dando aula para meia dúzia, os que irão fazer mestrado e, enfim, voltarão para nos substituir na rede pública de ensino que talvez sobre: a da universidade. Estamos endossando a idéia que se disseminou nas práticas governamentais dos últimos anos: o que haverá no Brasil, em termos de ensino público, será uma grande rede de colégios mais ou menos profissionalizantes, em nível superior – a rede de ensino das universidades públicas. Aqui se dará o final da alfabetização e alguma profissionalização. Todo mundo sairá dessa rede com diploma de nível superior.
O brasileiro médio vem concordando com isso. De uns vinte anos para cá, a população brasileira vem acreditando que a educação básica não importa, que o que importa é a educação superior. Por educação superior, leia-se: diploma de nível superior. Isso é tão visível que uma parte da população acha que o vestibular não serve para nada, que a matéria que “cai no vestibular” é inútil para se cursar a universidade. Nós, professores universitários, sabemos que não. Sabemos que os alunos que passam por vestibulares mais concorridos formam turmas melhores na universidade. Sabemos que o ensino básico é necessário e que aquilo que os cursinhos pré-vestibulares ensinam é realmente o que é preciso para que o ensino universitário aconteça. Mas, o fato é que nós nem mais conseguimos lutar por nada. Pois o MEC, a quem poderíamos ter acesso, está de mãos atadas. Nosso ensino básico é inteiro municipal e estadual. Somos arrastados por esses mecanismos de desvalorização do professor do ensino básico, e que está tornando nosso país inviável. Estamos nos tornando a quinta economia do mundo, mas não conseguimos nos civilizar e, enfim, poderemos morrer na praia, porque somos um país cujo ensino não anda.
Essa desgraça que se abateu no ensino básico (e não só público!), por culpa da sociedade e dos estados, já está atingindo o ensino superior. Nem mesmo a USP ou outras federais famosas estão entre as escolas que ocupam posições de destaque no cenário internacional. Na última classificação, vários países ditos emergentes apareceram entre aqueles que tinham universidades no ranking mundial. O Brasil não! Nem mesmo a USP? Que USP que nada! Ela já não aparece mais!
É incrível que a cada período eleitoral tenhamos de aguentar os candidatos a cargos executivos e legislativos dizendo que a educação é a prioridade e, logo em seguida, os vemos dizendo que, em termos de ensino, tudo vai bem. Não vai. E nós, professores universitários, continuamos a mentir para nós mesmos, concordando com isso e dizendo para nossos alunos que eles estão se formando para alguma coisa que vale a pena. É mentira. Nós somos todos um bando de Pinóquios.


Fonte:http://ghiraldelli.pro.br/