quinta-feira, 14 de abril de 2011

Carta de um ex-aluno

Carta de um querido ex-aluno para suas alunas, é bom perceber que bons filósofos existem, a pedido irei preservar seu nome e o destinatário desta carta, reflita após uma crítica leitura!


PARA TODOS OS MEUS ALUNOS E ALUNAS

ENSAIO SOBRE OS ERROS COMETIDOS

"Um dia acreditei piamente na educação. Acreditei que a partir dela poderíamos modificar toda a sociedade. Mas percebi que isso é um sonho utópico demais para minha mente filosófica.
Eu sei que minha matéria é considerada inútil e minha aula não é obrigatória. Sei também,que poderia utilizar de alguns métodos disciplinadores,mas isso poderia tirar a essência da minha aula:a liberdade.
Não gosto de culpar os alunos por não me respeitarem. Dei a ele a liberdade de estarem ou não comigo,e quero acreditar que aqueles que preferiram se ausentar livremente,o fizeram por ignorância. Cometeram tais faltas simplesmente porque não conseguiram descobrir a importância da filosofia para a vida.
Descobri,com certo desapontamento,que a maioria dos alunos são “mercenários” e tem por interesse apenas a nota;isso é algo que não posso conceder.
Mas se eles tivessem consciência e dela fizessem um exame,poderiam analisar a situação que estamos. A maioria,por ignorância,desconhece que luto pelo direito de uma educação publica de qualidade. Também desconhecem o fato de que eu não tenho nenhuma obrigação legal com eles,nenhuma lei me obriga a estar aqui,mas,justamente por ser livre,eu me obrigo a ser o melhor para eles. Desconhecem,por ignorância,que voluntariamente estou aqui. Desconhecem que estou à beira da falência,que minhas economias estão quase no fim. Desconhecem o fato de que tenho um filho que necessita mais de mim do que eles,mas é justamente a eles que dedico a maior parte do meu tempo e de minha vida. Desconhecem que o valor do meu salário é exatamente zero e não reclamo por isso,porque fui eu que submeti à isso acreditando que poderia modificar a vida de alguns deles e por amor à profissão e à causa,eu abri mão de um salário para estar com eles. Nem imaginam que eu enfrento a chuva,o sol,o frio,a doença para estar aqui com eles e tentar ajudá-los a ter uma educação de qualidade.
As vezes não tenho vontade de viver,pelo fato de ser tratado como inútil. Eu não sou inútil. Até agora fiz o melhor de mim,mas até agora poucos,ou quase ninguém,percebeu. E agora eu reflito se é esta vida que quero para mim. E ao mesmo tempo concluo que é justamente isso que eu quero. Quero continuar professor. Mas temo que toda essa reflexão seja inútil. Que todas as minhas palavras sejam vãs.
Quero acreditar que meus alunos desconhecem por ignorância que todos os dias vou trabalhar caminhando;meu dinheiro não sobra para que eu possa tomar um ônibus e vir para o colégio todos os dias de manhã para estar com eles e à serviço da educação deles. Mas eles preferiram não estar comigo. Sei que pode parecer um texto sentimental,mas é racional. E este filósofo em potencial demonstra aqui apenas os fatos que presenciou em sua estada nesse colégio. Se este texto chegar a ser lido por alguém,espero que atinja o meu objetivo:uma reflexão acerca das ações praticadas e do que realmente somos enquanto parte desse processo educacional. Ainda quero pensar que a educação pode modificar pessoas. Quero ainda pensar que meus alunos erram por ignorância. Quero ainda poder acordar de manhã imaginando que a filosofia pode transformar vidas. Quero ainda pensar que posso fazer parte dessas mudanças e as pessoas parem de pensar que tudo o que eu faço é inútil;mas se pensarem nada farei,porque todos nós somos livres,assim vivemos e assim queremos morrer.
Quero encerrar este ensaio com uma frase filosófica de Epicuro: “É vão o discurso do filósofo que não cure algum mal na alma do homem.”

Apucarana,13 de abril de 2011

Professor de Filosofia